Confidencial Imobiliário
logo
Releases Dashboard Editorial Bases de Dados Sobre a CI
Login
EN / PT
logo
maio 2026
A CIDADE DO FUTURO NÃO SE LICENCIA APENAS MAIS DEPRESSA

Há leituras que mudam a forma como olhamos para as coisas. Nos últimos tempos, tenho lido sobre cidades - sobre o que as torna vivas ou as esvazia, sobre o que as faz durar ou as condena ao esquecimento. Nessas páginas, encontrei uma ideia que não me larga: "Utopia is a literary invention of a place so perfect that it can't exist in reality. But that's exactly what we should be striving towards. Of course you can't realize utopia in a single flash. What we can do, however, is make sure that every time you are called upon to design a building or an urban space, you have to make this little fragment of the world more like the way you wish the world to be" (Bjarke Ingels). Daqui, saltou uma pergunta essencial: o que estamos, afinal, a construir?

Foto de Andreia Candeias Mousinho

Andreia Candeias Mousinho
Sócia/Partner, PLMJ

É com esta inquietação que leio as recentes alterações ao Regime Jurídico da Urbanização e da Edificação, cujo diploma foi promulgado pelo Presidente da República no passado dia 21 de maio, revendo o regime jurídico aplicável às operações urbanísticas. A promessa é conhecida e, em grande medida, legítima: procedimentos mais ágeis, prazos mais curtos, maior responsabilização dos intervenientes e melhor resposta a uma crise habitacional que se tornou socialmente insustentável. Num país onde o tempo de licenciamento e a burocracia se tornaram sinónimos de bloqueio administrativo, seria difícil - e intelectualmente desonesto - contestar a necessidade da simplificação.

Mas a questão mais importante talvez não seja a velocidade com que aprovamos cidade, mas sim o tipo de cidade que estamos a aprovar. Porque simplificar procedimentos não é o mesmo que simplificar urbanismo - e as duas coisas não são, necessariamente, coincidentes.

Durante décadas, o crescimento urbano foi medido em quantidade - fogos, metros quadrados, velocidade de execução. Hoje, a reflexão que tem vindo a ser feita sobre o futuro das cidades aponta para critérios radicalmente diferentes: proximidade, qualidade do espaço público, conforto climático, mobilidade pedonal, mistura funcional. A cidade mais desejável não é a que cresce mais depressa, mas a que funciona melhor para quem a vive.

A história das grandes metrópoles parece confirmá-lo: as cidades mais resilientes não foram as que cresceram mais rapidamente, mas as que souberam reinventar-se sem perder a dimensão humana. A sua vitalidade nasceu da complexidade: da capacidade de reunir pessoas diversas, funções distintas, formas diferentes de trabalhar e circular. Essa complexidade não nasce das simples simplificação e desburocratização dos procedimentos urbanísticos. E é aqui que o debate português ainda é tímido.

Portugal enfrenta hoje uma conjugação particularmente exigente de crises - habitacional, demográfica, climática, de acesso à cidade consolidada. Perante este cenário, acelerar procedimentos é necessário, mas dificilmente suficiente.

O risco de qualquer simplificação administrativa é precisamente esse: resolver a urgência quantitativa, sem discutir a qualidade do modelo urbano que dela resulta.

E as decisões urbanísticas têm uma característica que as distingue de quase todas as outras: são dificilmente reversíveis ou capazes de ser apagadas com uma borracha. Os bairros que hoje aprovamos definirão a forma como vivemos nas próximas décadas. A relação entre habitação e mobilidade, entre espaço público e comunidade, entre densidade e qualidade de vida não se corrige facilmente depois de construída.

O novo Simplex Urbanístico será genuinamente útil se conseguir libertar capacidade administrativa sem empobrecer a visão urbana. Pode acelerar a regeneração de edifícios devolutos, a densificação inteligente em zonas já infraestruturadas. Mas, se se reduzir à velocidade sem uma visão integrada sobre mobilidade, espaço público, infraestrutura verde e serviços coletivos, arrisca produzir o efeito contrário ao pretendido.

As cidades que nos devem inspirar têm em comum algo que nenhum diploma legal consegue garantir sozinho: foram desenhadas para pessoas. O seu quotidiano faz-se a pé. Os serviços estão próximos. O espaço público é efetivamente vivido.

Logo, o verdadeiro teste a esta legislação não será o número de processos aprovados ou de fogos disponibilizados. Será perceber se estamos a criar cidades onde valha a pena viver.

Primeiro criamos as cidades. Depois, elas criam-nos a nós. A cidade do futuro não se mede pela rapidez com que se constrói. Mede-se pela forma como nela se vive.

PARTILHAR:
observatorio-urbano-de-braga PUB
observatorio-imobiliario-de-gaia PUB
Logo
Acompanhe a evolução do mercado imobiliário com o Índice Confidencial Imobiliário. Conheça os valores de mercado à escala do código postal e freguesia com o SIR – Sistema de Informação Residencial. Acompanhe todas os novos empreendimentos e obras privadas com o Pipeline Imobiliário. A revista Confidencial Imobiliário analisa o mercado imobiliário através das nossas bases de dados exclusivas. A Confidencial Imobiliário é a ferramenta de mercado essencial para Mediadores Imobiliários, Promotores Imobiliários, Investidores e Instituições Financeiras.
© Confidencial Imobiliário 2026. Todos os direitos reservados.
  • CONFIDENCIAL IMOBILIÁRIO
  • Releases
  • Editorial
  • Bases de Dados
  • Conceitos e Glossário
  • Sobre a CI
  • FAQ
  • Autores
  • Estatuto Editorial
  • Política de Privacidade
  • Termos e Condições de Uso
Siga-nos:
  • CONTACTOS
  • Rua Gonçalo Cristóvão 185 – 6º
  • 4000-269 Porto
  • Tel: +351 222 085 009 - Chamada para a rede fixa nacional|Fax: +351 222 085 010
  • gestao@confidencialimobiliario.com